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Filme do CAL é objeto de pesquisa de doutorando da UFRGS

"O Tropeiro e o Demônio Branco" integra pesquisa sobre cinema de horror negro


Quando o professor Lucas Bitencourt Fortes conheceu o filme “O Tropeiro e o Demônio Branco”, não teve dúvidas: o curta-metragem de ficção realizado por integrantes do Coletivo Audiovisual Lageano (CAL) passaria a integrar sua pesquisa do doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).


Pesquisador de cinema no campo dos Estudos Culturais, Lucas desenvolve pesquisas sobre o cinema de horror negro desde 2021, quando começou seu mestrado. Ele também criou e mantém o perfil “Desmembrando o Horror”, no Instagram, no qual escreve sobre filmes e recomenda trabalhos acadêmicos que se debruçam sobre o gênero.


“Atualmente, pesquiso cinema de horror negro brasileiro, tenho como foco pensar as representações de negritude presentes em tais produções, assim como pensar o que denomino como ‘pedagogias do horror’, que são as reflexões, ensinamentos e lições que emergem a partir da exploração de particularidades do gênero. Por exemplo, o que a figura monstruosa presente em tantas produções nos ensina ou como medos e traumas são explorados e consequentemente o que eles nos revelam”, explica.


Lucas conta que, desde criança, se interessava por filmes do gênero horror e já adulto e graduado, passou a ter um olhar mais crítico para estas obras. O interesse pelo cinema de horror negro brasileiro nasceu a partir de questionamentos e inquietações que ele tinha, especialmente a partir do lançamento e visibilidade do filme “Corra!”, de Jordan Peele. A partir deste momento, ele começou a buscar exemplos de filmes de horror negro no Brasil e a pesquisar o que estas produções poderiam revelar sobre o contexto brasileiro.


O contato com o filme lageano “O Tropeiro e o Demônio Branco” aconteceu durante o VII Curta Lages, em 2024. “Em conta da pesquisa, comecei a me atentar a diversas plataformas e festivais. Comecei a catalogar cada produção que encontrava, registrando produções realizadas por cineastas negros que se debruçassem sobre o gênero de horror ou que ao menos flertassem com ele. ‘O Tropeiro e o Demônio Branco’ é um filme que gostei tanto como apreciador do gênero, quanto como pesquisador. É um filme que, na minha visão, explora de forma maravilhosa as potencialidades do horror, sabendo inclusive subverter estereótipos, com uma narrativa muito conectada com elementos da história brasileira e do nosso cotidiano, além de revelar muito do contexto a partir do qual foi produzido”, analisa.


O pesquisador destaca que olhar para o cinema de horror negro oportunizou que ele pudesse pensar a história dos sujeitos negros no cinema nacional, tanto nas telas como por trás das câmeras, além de analisar todas as barreiras e dificuldades impostas ao longo dos anos. 


“No tocante ao gênero de horror, acredito que a pesquisa caminhe no sentido de mostrar as potencialidades do gênero, permitindo que, por meio do seu teor visceral, temas sensíveis sejam abordados. Além de mostrar o quanto o gênero é diverso. E especificamente sobre o cinema de horror negro brasileiro, percebo que ele abarca particularidades muito ricas, pois as representações produzidas e as pedagogias que ali emergem são fruto do olhar de sujeitos negros, sujeitos que, por muito tempo, não tiveram a oportunidade de posicionar-se de forma adequada no meio audiovisual. Então essas produções têm muito a dizer e muito a ensinar”, avalia.


A diretora do curta Jana de Liz avalia como positiva a iniciativa de se estudar cinema de horror negro. “A importância de um filme sobre negritude, pautado no cinema de horror, transcender o cinema e se tornar objeto de estudo acadêmico reside na sua capacidade de afirmar a produção cultural negra como uma forma legítima de conhecimento, resistência e reconfiguração da memória histórica. Ao adentrar o espaço acadêmico, esse cinema rompe com silenciamentos estruturais, ampliando o repertório crítico sobre representatividade, contribuindo para a construção de novas epistemologias baseadas em vivências, estéticas e novas narrativas”, completa.


Sobre o filme

“O Tropeiro e o Demônio Branco” é um curta-metragem de ficção do gênero terror, produzido pelas produtoras Maré Estúdios, Coração Delator Filmes, Bagagem Produção Cultural, e tem direção de Jana de Liz e roteiro de Armin Daniel Reichert.


O filme se passa no centésimo aniversário de José, data em que ele relembra histórias do seu passado como tropeiro. Uma noite que deveria ser de comemoração acaba tomando um novo rumo quando a mais sombria delas é contada, a do tropeiro e o demônio branco.


Texto: Núbia Garcia

Fotos do filme: Filipi Motta

Foto do Lucas Bitencourt Fortes: Arquivo pessoal


Diretora Jana de Liz e roteirista Armin
Reichert, à época das gravações

Pesquisador Lucas Bitencourt Fortes

Atores Rafael Henrique (E), Robson Benta
e Gilson Máximo em cena do filme